O Design que Brota da Terra: Um diálogo com Marcia Massuci sobre ancestralidade e o novo luxo.

Por Jonatan Cerqueiro | Jornalista e Crítico de Design

Fortaleza tem mudado sua silhueta. Entre o concreto e o vidro que sobem aos céus na Beira-Mar, existe um movimento silencioso, mas potente, que olha para o chão. Para a terra. Para o que sempre esteve aqui. É nesse resgate sofisticado que encontro Marcia Massuci.

No comando da marca que leva seu sobrenome, Marcia não vende apenas decoração. Ela propõe uma pausa. Em seu ateliê, onde o cheiro de fibra natural se mistura ao de café fresco, conversamos sobre como transformar buriti e carnaúba em objetos de desejo, e sobre como o verdadeiro luxo, hoje, é ter consciência de onde viemos.

Abaixo, os principais trechos dessa conversa franca sobre a ancestralidade nordestina e o futuro do consumo.


Jonatan Cerqueiro: Marcia, vivemos um momento curioso no design de interiores no Nordeste. Há uma busca pelo cosmopolita, mas ao mesmo tempo, uma sede imensa pela identidade local. A MMassuci parece navegar exatamente nessa fronteira. Onde começa a "alma nordestina" nas suas criações e onde entra o design contemporâneo?

Marcia Massuci: Jonatan, eu acredito que o regionalismo não precisa ser caricato. Ele pode, e deve, ser universal. A alma nordestina na MMassuci está na "verdade" do material. Quando a gente pega uma fibra de carnaúba ou de buriti, estamos tocando em séculos de história, de sol, de resistência da caatinga e do litoral. Isso é a nossa alma.

O design contemporâneo entra como a ferramenta de tradução. Ele limpa os excessos, estuda as proporções, traz a ergonomia e a leveza que a arquitetura moderna pede. O meu trabalho é garantir que a peça tenha a sofisticação que um apartamento em Miami ou São Paulo exigiria, mas que, ao tocá-la, a pessoa sinta o calor do Ceará. É uma ancestralidade vestida de gala.

Jonatan: Você tocou no ponto da matéria-prima. Sabemos que trabalhar com elementos naturais exige um respeito ao tempo da natureza, algo que a indústria tradicional ignora. Como funciona esse diálogo entre a sua criatividade e o que a terra oferece?

Marcia Massuci: É um exercício de humildade. Na indústria do plástico, você força o material a ser o que você quer. No design natural, o material te diz o que ele quer ser. Às vezes, idealizo uma luminária com uma curvatura X, mas a fibra me pede outro caminho para manter a integridade dela. E eu respeito.

Além disso, existe a questão ética, que para mim é inegociável. Não dá para falar de beleza se o processo for feio. Trabalhamos com manejo sustentável, e isso quer dizer que é nossa responsabilidade fazermos o máximo para sempre fazermos o sourcing da nossa matéria prima com parceiros e fornecedores que são certificados FSC, por exemplo, para garantir a origem da nossa madeira e fibras. A natureza nos empresta essa beleza; o mínimo que podemos fazer é garantir que o ciclo de extração e renovação seja saudável.

Jonatan: Isso nos leva a um tema urgente: o consumo sustentável. A palavra "sustentabilidade" foi muito desgastada pelo marketing. O que ela significa, na prática, para quem adquire uma peça da MMassuci hoje?

Marcia Massuci: Concordo com você, a palavra virou commodity. Mas na prática, sustentabilidade é sobre longevidade e relacionamento. O consumo descartável é o oposto do que fazemos.

Quando um cliente leva um vaso ou um adorno nosso, ele está levando algo feito à mão, que demorou horas ou dias para ser tecido. Aquilo não foi feito para ser trocado na próxima estação. Foi feito para envelhecer com a casa, para contar história. Sustentabilidade também é sobre valorizar a cadeia humana. É remunerar bem o artesão, é valorizar o saber manual.

E vamos além: criamos até o TerraCash, nosso sistema de cashback, justamente para criar um ciclo. Queremos que esse cliente entenda que ele faz parte de uma comunidade que valoriza o design autoral. Não é só comprar e ir embora; é criar um elo.

Jonatan: A ancestralidade está muito em voga, mas muitas vezes é vista apenas como estética. Como você vê a aplicação desse conceito na funcionalidade da casa moderna?

Marcia Massuci: A ancestralidade é tecnologia, Jonatan. As tramas que usamos hoje foram desenvolvidas por povos originários e comunidades tradicionais porque funcionam. Elas permitem a ventilação, são térmicas, são resistentes.

Trazer isso para a casa moderna é resgatar o bem-estar. Uma luminária de fibra filtra a luz de um jeito que o acrílico nunca vai conseguir. Ela cria uma "sombra viva", traz aconchego, acalma. Em um mundo de telas brilhantes e luz fria, ter um pedaço de ancestralidade na sala é quase terapêutico. É um lembrete de que somos humanos, de que somos natureza.

Jonatan: Para encerrarmos: se você pudesse resumir a sensação que deseja provocar em quem entra em um ambiente decorado com suas peças, qual seria?

Marcia Massuci: Pertencimento. Eu quero que a pessoa olhe e sinta que aquele objeto tem vida, tem pulsação. Que não é um cenário intocável, mas um lar vivido. A MMassuci existe para transformar espaços em moradas, e moradas em refúgios de sensibilidade.